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Kazunori Yamauchi quer que o Gran Turismo tenha suporte nativo a mais volantes

por Flavio Bode

O mercado de hardware para sim racing passou por uma transformação profunda nos últimos anos. O que antes era um nicho restrito a poucos fabricantes se tornou uma indústria multimilionária, com marcas disputando espaço nos rigs dos jogadores e oferecendo soluções cada vez mais sofisticadas. Esse crescimento naturalmente levanta uma questão importante: como o Gran Turismo lida com essa nova realidade dentro do ecossistema PlayStation?

Durante as finais da Gran Turismo World Series 2025, realizadas em Fukuoka, no Japão, Kazunori Yamauchi, chefe da Polyphony Digital, falou abertamente sobre a estratégia do estúdio para compatibilidade com volantes, a atualização Spec III e os motivos pelos quais a “liberdade total” do PC nem sempre é o caminho ideal para a experiência em consoles.

O que significa “suporte nativo” no Gran Turismo

Para quem vem do sim racing no PC, a compatibilidade costuma ser simples: conectar o volante, mapear botões livremente, misturar pedais de marcas diferentes e ajustar tudo manualmente. Yamauchi até brincou que, nesse cenário, você poderia “colocar a buzina na posição da terceira marcha” se quisesse.

Mas essa liberdade extrema não se encaixa na filosofia do Gran Turismo. Para a Polyphony Digital, suporte nativo não é apenas fazer o volante funcionar, mas garantir que o feedback de força, a resposta da direção e a sensação do carro estejam alinhados com a física do jogo.

Segundo Yamauchi, a atualização Spec III trouxe um trabalho intenso de refinamento nos volantes, com o objetivo claro de ampliar o número de modelos com suporte nativo real. A ideia é que o jogador conecte o hardware e tenha uma experiência correta e coerente, sem precisar passar horas ajustando menus complexos — algo que, segundo ele, mais confunde do que ajuda a maioria dos jogadores.

A filosofia do force feedback

Para Yamauchi, o volante é a principal ponte entre o jogador e o motor de física do jogo. Ele acredita que cada carro deve ter uma identidade clara na direção, independentemente do volante utilizado.

Um carro de luxo, uma van como a Toyota HiAce ou um esportivo extremo como um Porsche 911 GT3 RS não podem transmitir a mesma sensação ao volante. O peso da direção, a resposta da cremalheira e a leitura do asfalto precisam refletir essas diferenças. É exatamente isso que a Polyphony busca ao falar em suporte nativo: garantir que essas características sejam reproduzidas corretamente no force feedback.

Na prática, isso indica um trabalho mais profundo de integração entre o jogo e os fabricantes de hardware, permitindo que os dados internos da física do Gran Turismo sejam traduzidos com precisão para os motores das bases de volante, sem depender de ajustes manuais extremos por parte do jogador.

A vantagem do ecossistema PlayStation

Enquanto o PC oferece liberdade quase ilimitada, ele também exige conhecimento técnico elevado para alcançar um force feedback realmente bem ajustado. Yamauchi vê justamente aí a vantagem do Gran Turismo no PlayStation: uma experiência curada, automatizada e consistente.

Com suporte nativo, o jogo reconhece automaticamente as capacidades do volante — como torque máximo em bases Direct Drive — e ajusta a entrega de força de acordo com o carro utilizado, o peso da direção e as condições da pista. Isso garante uma experiência mais próxima do “plug and play”, algo essencial para campeonatos, ligas e competições organizadas, como acontece no cenário da Super GT Brasil.

O que isso indica para o futuro

As declarações de Yamauchi apontam para um caminho claro. A Polyphony Digital quer ampliar o suporte oficial a mais volantes de alta qualidade, inclusive de marcas historicamente mais ligadas ao PC. Isso pode significar novas licenças oficiais PlayStation e integrações mais profundas com o Gran Turismo.

Outro ponto importante é o peso crescente do force feedback dentro do desenvolvimento do jogo. Embora a física sempre seja o foco principal, Yamauchi raramente fala de feedback de força sem que haja algo concreto sendo trabalhado nos bastidores. Isso reforça que o volante deixou de ser apenas um acessório e passou a ser parte central da experiência.

Para os jogadores, o recado é claro: em vez de oferecer dezenas de sliders e configurações complexas, a Polyphony Digital prefere garantir que o Gran Turismo entregue, desde o primeiro momento, uma sensação de direção precisa, coerente e fiel, independentemente do hardware conectado.

PC no sim racing: liberdade técnica ou desigualdade esportiva?

Não existe BOP (equilíbrio de desempenho) no SimRacing de PC quem tem menos dinheiro está em maus lençois

Existe um ponto que raramente é abordado com honestidade no sim racing competitivo: o PC se tornou uma plataforma estruturalmente desigual e eticamente questionável para competições esportivas. O discurso da “liberdade” técnica soa bonito no papel, mas na prática cria um cenário de profunda disparidade entre competidores.

Em uma mesma corrida no PC, é comum termos pilotos utilizando um único monitor de 24 polegadas, placas gráficas defasadas, processadores no limite e configurações gráficas reduzidas, enquanto outros competem em rigs que ultrapassam facilmente os R$ 100 mil, com cockpits profissionais, múltiplos monitores ultrawide, sistemas pneumáticos, plataformas de movimento para simulação de força G e ajustes de software extremamente avançados. Isso não é competição justa — é uma corrida onde o equipamento passa a influenciar diretamente a performance.

No ambiente esportivo, quando o hardware cria vantagens perceptíveis de percepção, resposta visual, campo de visão e leitura de pista, a habilidade deixa de ser o único fator decisivo. E quando isso acontece, o sim racing perde parte de sua essência competitiva.

PlayStation: desempenho padronizado, competição justa

PlayStation 5 com PSVR2 preserva seu espaço residencial com muito mais imersão, salva seu dinheiro e oferece muito mais realismo.

No ecossistema PlayStation, o cenário é radicalmente diferente. Com um PlayStation 5 base, um volante intermediário e um cockpit igualmente intermediário, o piloto já tem acesso a uma experiência extremamente próxima do ideal. A diferença de desempenho entre sistemas é mínima, praticamente irrelevante do ponto de vista competitivo.

Todos os jogadores estão rodando o mesmo jogo, na mesma arquitetura de hardware, com o mesmo teto de desempenho gráfico e físico. Isso cria um ambiente onde quem vence, vence por habilidade, dedicação, estudo e horas de treino — exatamente como deve ser em qualquer modalidade esportiva séria.

Essa padronização técnica não é uma limitação, mas sim uma virtude. Ela elimina vantagens artificiais e coloca todos os competidores em um patamar muito próximo de igualdade, algo essencial para campeonatos organizados, ligas estruturadas e disputas limpas, como se espera no sim racing moderno.

VR2: imersão real por uma fração do custo

Cockpit com PSVR2 do PLaystation 5, cabe em qualquer cantinho, investimento pequeno e imersão máxima.

Outro ponto frequentemente ignorado nas comparações é o impacto do PlayStation VR2. Em termos de custo-benefício, o VR2 entrega algo que sistemas de PC dificilmente conseguem igualar sem investimentos massivos: imersão total.

Enquanto no PC a busca por imersão visual geralmente passa por kits de múltiplos monitores — caros, complexos e que exigem placas gráficas extremamente potentes — o VR2 coloca o piloto literalmente dentro do carro, com percepção real de profundidade, distância, ponto de frenagem e posicionamento espacial. Tudo isso por um custo significativamente menor e com integração nativa ao sistema.

Em muitos cenários, o VR2 não só é mais barato do que setups avançados de monitores, como também oferece uma experiência mais coerente com a realidade de pilotagem, especialmente em carros de corrida.

Custo, eficiência e ética esportiva

É muito bonito aos olhos é ao ego do consumo, mas ainda não consegue bater a imersão do PSVR2 do PlayStation 5

Quando analisamos a relação custo × eficiência × justiça competitiva, o PC perde força. Para alcançar um nível realmente alto no sim racing de PC, o investimento cresce de forma exponencial, e ainda assim cria um ambiente onde as diferenças de hardware são inevitáveis e, muitas vezes, decisivas.

No PlayStation, o que se tem é mais do que suficiente para o esportista do sim racing. O sistema entrega desempenho consistente, física confiável, suporte nativo a hardware e um ambiente competitivo muito mais equilibrado. Em campeonatos, isso se traduz em disputas mais limpas, resultados mais justos e menor influência de fatores externos.

Por isso, do ponto de vista esportivo e ético, o PlayStation se consolida como a plataforma mais justa para o sim racing competitivo. Não porque limita, mas porque equaliza e com muita qualidade. Não porque empobrece a experiência, mas porque coloca todos os pilotos no mesmo ponto de largada.

E em um esporte — virtual ou real — isso não é detalhe. É princípio.

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